16.2.11

Malam, o poeta da aldeia


@Ana



- Abo!
Desloco a cabeça para os lados tentando descobrir se está alguém ao redor.
- Abo! Ê cumá?
Não, é mesmo comigo.

Malam, na elegância de um sorriso aberto e com reduzido número de dentes, dirige-se a mim confiante. Estende o braço do seu traje colorido e dispara frases em crioulo. Pergunta e responde sem se preocupar com o meu silêncio. Coloca a mão no meu ombro e, como que abre a cortina do teatro, começa a contar-me num português precário a sua terra.

Fala das cabras e do seu andar de domingo na rua, entre os restos de plástico e as cascas de fruta. Aponta as crianças que riem alto e brincam, apesar dos pés nus no asfalto. Oh, e como se delicia a olhar as mulheres, deusas em desfile enquanto o corpo sucumbe pelo filho colado às costas e a saca de arroz à cabeça.

Desligo-me da paisagem por um instante. Suspensa em Malam, o poeta improvisado da aldeia africana, berço da iliteracia, que ilumina o caminho e, talvez, um pouco do seu país.

Compreendo e aprendo a ir com ele.
Repito: Nô bai! E vou.

9.2.11

O regresso


@Ana



Quase que o via da minha janela. O regresso.

Antecipando a estrada que tantas vezes fiz desenhei no horizonte o corpo, as curvas negras daquela terra que pelo tempo me foi conhecendo.

Ao toque dos grãos de areia nas pernas a doce sonolência do sol escorregava nas minhas costas. E o som de um menino a comer suspirado por uma brisa.

Era noite. Era agora. Cheguei.

29.1.11

Nome


@Ana



Finalmente compreendi.
Saberá o coração até onde, tu, irás. 

E ao meu corpo apenas basta isso. Levar-te.

12.1.11

O passeio


@Ana



Perguntam.        O que fazes?


Direi.                                Estou a aprender-me!


7.1.11

Gotas


@Ana


Abri as cortinas do dia e reparei nas últimas gotas da tarde. Presas à janela divertiam-se no esplendor do Inverno. A valsa continua pela rua, água que desce e se depara com novo tapete verde, pedra que descai de seu assento e se acomoda outra vez, homem que anda e reclama ao vento.

Do outro lado do vidro junto a mão às gotas. Reconheço o frio a chegar à pele, a aproximar-me do abrigo exterior. Depois da estrada, do muro, do portão, lá estão elas.

Árvores de vida longa.
Flores nuas que me viram nascer. 
Folhas que vão quando eu vou e aplaudem quando chego.


No dia do adeus cantem... Cantem ao entardecer o amor da menina pelas árvores, os bichos e a terra.
  

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